Do Tengrismo ao Islã: A História da Conversão dos Turcos
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Você já se perguntou por que a Ásia Central é hoje quase inteiramente de influência islâmica? Não foi por acaso. A história de como os turcos abraçaram o Islã não é apenas uma sucessão de datas é o relato de uma mudança cultural e geopolítica massiva que redesenhou o mapa do mundo.
Da herança xamânica das estepes aos minaretes de Bagdá: analisamos a trajetória de uma cultura guerreira que não apenas adotou uma das maiores religiões do mundo, mas a defendeu durante séculos como a “Espada do Islã”.

Por que essa mudança alterou o curso da história
O Islã na cultura turca não é um produto importado da era moderna. Suas raízes remontam ao século X. No ano de 932 d. C., Satuk Buğra Han declarou o Islã como a religião oficial do Estado do Império Caracanida. Este foi o ponto de virada decisivo: pela primeira vez, o Islã não era praticado apenas por indivíduos, mas tornou se a razão de Estado de um império turco.
Contudo, a história começa antes. Muito antes de os Otomanos governarem Jerusalém, foram as rotas comerciais da Rota da Seda que aproximaram árabes e turcos. Foi um intercâmbio de mercadorias, ideias e inevitavelmente crenças.
O primeiro encontro: Mais do que apenas vizinhos
Muçulmanos e turcos conheciam se muito antes da conversão em massa. Mercenários turcos eram altamente valorizados nos exércitos abássidas por sua habilidade na montaria e disciplina. Essa simbiose militar criou a primeira base de confiança. Eles não apenas viviam lado a lado; lutavam e negociavam juntos através de pontos como o Bazar de Istambul em suas formas primitivas de comércio.
O Ponto de Virada: A Batalha de Talas (751 d. C.)
Se tivéssemos que nomear um único dia que selou o destino da Ásia Central, seria o dia da Batalha de Talas em 751. Ali, não se enfrentavam apenas exércitos, mas visões de mundo.
As tribos turcas Karluk aliaram se ao Califado Abássida contra a Dinastia Tang da China. A vitória da aliança muçulmano turca interrompeu permanentemente a expansão chinesa para o oeste. Isso abriu as portas para o Islã na Ásia Central e assegurou a Rota da Seda para os comerciantes muçulmanos. Sem Talas, a história da Turquia hoje seria completamente diferente.
Pioneiros da Fé: Satuk Buğra Han e Nizak Tarhan

Embora Satuk Buğra Han (reinado c. 920-955) seja considerado o primeiro governante a tornar o Islã a religião de Estado (oficialmente em 932 d. C.), já existiam convertidos proeminentes antes dele. Fontes históricas apontam para Nizak Tarhan, um príncipe turco de Badghis, que adotou o Islã ainda no início do século VIII (c. 704-709). Essas decisões individuais pavimentaram o caminho para a conversão em massa das tribos Karluk, Chigil e Yagma.
A expansão do Império Seljúcida
Com os Seljúcidas, o Islã tornou se móvel. Sob a liderança de Tuğrul Bey (falecido em 1063), os turcos oguzes conquistaram a Pérsia e marcharam sobre Bagdá em 1055, colocando o Califado Abássida sob sua proteção.
Essa expansão atingiu seu auge sob o Sultão Melikşah (falecido em 1092). Naquela época, o império estendia se do Iêmen ao sul até as montanhas Hindu Kush no Afeganistão ao leste. Essa vasta massa de terra permitiu uma síntese cultural que mais tarde formaria a base para a arte do tapete da Anatólia e a arquitetura que conhecemos hoje.
Em que os turcos acreditavam antes do Islã?
Para entender por que os turcos abraçaram o Islã, precisamos entender o que eles deixaram para trás ou melhor, o que eles transformaram.
Tengrismo: A Crença no Céu Azul
O Tengrismo era o núcleo da identidade turca. Gök Tanrı (Tengri) era o criador do universo. Ele concedia aos governantes o “Kut” (a permissão divina para reinar). Curiosamente, já existiam paralelos fortes com o Islã: era uma crença em um criador único e onipotente.
Os principais conceitos do Tengrismo:
- Vida após a morte: Os bons iam para o “Uçmağ” (paraíso), os maus para o “Tamu” (inferno).
- Curganes e Balbal: Os mortos eram sepultados em montes funerários (Curganes). Ao redor desses túmulos, eram colocadas estátuas de pedra (Balbal), simbolizando inimigos derrotados que serviriam ao falecido no além.
- Espíritos da Natureza (Yer Su): Montanhas, rios e florestas eram considerados animados. O termo “Iduk” designava lugares sagrados, como a floresta de Ötüken.
A ponte entre dois mundos: Islã e Tengrismo em comparação
Muitos historiadores argumentam que os turcos aceitaram o Islã tão prontamente porque ele não contradizia sua fé existente, mas a complementava. As semelhanças eram surpreendentes.
Animismo e Totemismo: O Legado da Natureza
Além do Tengrismo, coexistiam camadas mais antigas de crenças que sobreviveram na cultura popular turca mesmo após a islamização:
- Culto aos Antepassados: Os espíritos dos antepassados protegiam a família. Isso se assemelha à prática islâmica posterior de visitar mausoléus (Türbe).
- Totemismo: O lobo (Bozkurt) era considerado um animal sagrado e ancestral dos turcos. A águia também desempenhava um papel central. Esses símbolos permaneceram como insígnias militares, mesmo sob bandeiras muçulmanas.
Conclusão: Uma nova identidade
A conversão dos turcos ao Islã não foi uma ruptura com o passado, mas uma evolução. Ao adotarem o Islã, eles não apenas garantiram seu lugar no mundo civilizado da Idade Média, mas ascenderam como seus líderes. Dos Seljúcidas aos Otomanos, essa síntese entre o espírito guerreiro turco e a civilização islâmica tornou se a força motriz da história. Ao observar as tradições culturais hoje na Turquia, vemos o resultado vivo desse processo milenar.








