Sultão Vahdettin (Mehmed VI): A História do Último Sultão Otomano
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O Sultão Mehmed VI, conhecido como Sultão Vahdettin (ou Vahideddin), ocupa um lugar singular e melancólico na história como o último governante do Império Otomano a deter simultaneamente os títulos de Sultão e Califa.
Vahdettin foi o último sultão de facto a exercer autoridade política soberana. Seu sucessor na dinastia, Abdülmecid Efendi, serviu apenas como Califa islâmico por um breve período após a abolição do sultanato, sem deter poder político real.

Linhagem e Família do Sultão Vahdettin
Mehmed VI pertencía à ilustre Casa de Osman, uma dinastia que governou por mais de seis séculos. Ele era filho do Sultão Abdülmecid I e neto do Sultão Mahmud II. Sua linhagem remonta diretamente ao fundador da dinastia, Osman Gazi, passando por figuras históricas como Suleiman, o Magnífico e Mehmed, o Conquistador.
Ao longo de sua vida, o Sultão Vahdettin casou-se com cinco mulheres e teve descendentes que marcaram os últimos dias da corte otomana:
- Nazikeda Kadın: Sua primeira e principal consorte. Com ela, teve três filhas: Fenire Sultan (que faleceu na infância), Fatma Ulviye Sultan e Rukiye Sabiha Sultan.
- İnşirah Hanım: Casaram-se em 1905, mas o união terminou em divórcio em 1909.
- Müveddet Kadın: Mãe do seu único filho varão sobrevivente, o Príncipe Mehmed Ertuğrul.
- Nevvare Hanım: Casaram-se em 1918 e divorciaram-se em 1924, já durante o exílio.
- Nevzad Hanım: Sua última esposa, com quem se casou em 1921.
A Vida Antes do Trono

O Sultão Vahdettin nasceu no Palácio Dolmabahçe, em Istambul, no dia 14 de janeiro de 1861. Sua infância foi marcada pela perda: seu pai, o Sultão Abdülmecid I, faleceu quando ele tinha apenas cinco meses de idade. Poucos anos depois, aos quatro anos, perdeu também sua mãe, Gülistu Kadın.
Órfão muito cedo, o jovem príncipe foi acolhido e criado por sua madrasta, Şayeste Hanım, que lhe proporcionou um ambiente familiar e educação refinada.
Educação e Interesses Pessoais
Demonstrando grande interesse pelo saber, Mehmed frequentou secretamente aulas em madrasas com amigos e complementou sua formação com tutores particulares. Seus estudos em teologia islâmica, interpretação do Alcorão (Tafsir) e Hadith deram-lhe a competência necessária para analisar questões religiosas complexas, habilidade que utilizaria mais tarde como Califa.
Além dos estudos religiosos, ele dominava o árabe e o persa e tinha uma profunda conexão com o sufismo, tendo frequentado lojas da ordem Naqshbandi em sua juventude.
O príncipe também era um homem de cultura e artes, um traço comum na elite otomana que valorizava obras como o tapete da Anatólia e a caligrafia. Vahdettin era um calígrafo talentoso e tinha grande apreço pela música, chegando a compor várias peças musicais.
O Reinado em Tempos de Guerra

Mehmed VI ascendeu ao trono em 4 de julho de 1918, após a morte de seu irmão Mehmed V Reşad. Ele assumiu o poder em um dos momentos mais críticos da história turca: o final da Primeira Guerra Mundial, com o Império Otomano à beira da derrota total.
Sua prioridade imediata era retirar o estado da guerra minimizando as perdas, já que o país estava devastado. Pouco depois de sua coroação, foi assinado o Armistício de Mudros (30 de outubro de 1918). Os termos foram severos: as Forças Aliadas ganharam o direito de ocupar pontos estratégicos, incluindo o controle dos Dardanelos e do Bósforo, e entraram em Istambul.
O governo do Comitê de União e Progresso (CUP), que havia conduzido o império à guerra, colapsou, deixando para Vahdettin a responsabilidade de lidar com a perda massiva de territórios e a desmobilização do exército otomano.
A Relação com Mustafa Kemal Atatürk
Um dos episódios mais debatidos de seu reinado é sua interação com Mustafa Kemal Paxá (futuro Atatürk). Após a rendição e o início da ocupação, o Sultão assinou a ordem enviando Mustafa Kemal para a Anatólia como Inspetor do 9º Exército. Oficialmente, sua missão era desarmar as milícias e restaurar a ordem conforme exigido pelos Aliados.
Historiadores divergem sobre as intenções exatas do Sultão. Algumas fontes o acusam de traição por colaborar com os britânicos e tentar suprimir o movimento nacionalista. Outras sugerem que ele jogava um jogo duplo desesperado para salvar o trono.
O próprio Atatürk relatou mais tarde que, em sua última audiência no Palácio de Yıldız, o Sultão lhe disse:
“Paxá, você serviu o estado muitas vezes até agora. Você pode salvar o país!”
Independentemente da intenção original, Mustafa Kemal usou essa autoridade para organizar a resistência nacional, fundando a Grande Assembleia Nacional da Turquia em Ancara, que eventualmente rejeitou a autoridade do Sultão e o armistício.

O governo de Istambul, sob pressão britânica, formou o “Kuvâ-i İnzibâtiyye” (Exército do Califado) para combater as forças nacionalistas (“Kuva-yi Milliye”). Essa guerra civil interna aprofundou o abismo entre Ancara e Istambul.
Em 1920, representantes do Sultão assinaram o Tratado de Sèvres, que impunha a partição da Anatólia. O governo de Ancara rejeitou veementemente o tratado, declarando-o nulo e intensificando a Guerra de Independência.

O Exílio e o Fim do Império
Com a vitória das forças nacionalistas na Guerra da Independência, a posição do Sultão tornou-se insustentável. Em 1º de novembro de 1922, a Grande Assembleia Nacional da Turquia aboliu oficialmente o sultanato, encerrando mais de seis séculos de governo otomano.
Em 17 de novembro de 1922, temendo por sua vida, Vahdettin deixou Istambul a bordo do navio de guerra britânico HMS Malaya. Ele partiu primeiro para Malta e depois estabeleceu-se em San Remo, na Riviera Italiana.
Imediatamente após sua partida, em 19 de novembro, seu primo Abdülmecid Efendi foi eleito pela Assembleia como o novo (e último) Califa, mas sem os poderes de Sultão. Vahdettin protestou contra essa eleição, sustentando até o fim que jamais havia abdicado de seus direitos legítimos ao trono e ao califado.
Morte e Legado
O último sultão otomano viveu seus anos finais com dificuldades financeiras e amargura no exílio. Mehmed VI Vahdettin faleceu em 16 de maio de 1926 em San Remo, Itália, devido a uma insuficiência cardíaca.
Sua morte trouxe um último embaraço: devido às dívidas acumuladas com o comércio local, seu caixão foi penhorado temporariamente. Sua filha, Sabiha Sultan, teve grande dificuldade para reunir os fundos necessários para liberar o corpo e realizar o funeral. Como a Turquia republicana não permitiu seu retorno, e outros países hesitaram, ele foi finalmente sepultado no pátio da Mesquita Selimiye (Takiyya al-Sulaymaniyya) em Damasco, na Síria.
Para quem visita a Turquia hoje e deseja levar uma lembrança histórica, a figura de Vahdettin permanece complexa: para alguns, um traidor que colaborou com os inimigos; para outros, um monarca infeliz preso em circunstâncias impossíveis.








