Império Otomano e EUA: História Oculta e Diplomacia (1797-1927)
Índice
Por que isso é importante hoje? A parceria estratégica entre a Turquia e os EUA é frequentemente vista como um fenômeno moderno da era da OTAN. No entanto, as raízes são muito mais profundas remontando a um acordo secreto de armas em 1830 e à primeira missão comercial americana em 1797. Quem deseja compreender a geopolítica atual precisa saber por que um sultão otomano tomou o partido de Lincoln na Guerra Civil Americana.

I. Introdução: Mais do que apenas tabaco e figos
Esqueça os livros de história secos que apenas listam datas. A relação entre a Alta Porta e a jovem república americana foi um verdadeiro thriller diplomático. Tratava se de proteção contra pirataria, acesso ao Mar Negro e intercâmbio tecnológico que as potências europeias observavam com desconfiança. Olhamos para os bastidores de uma aliança baseada no pragmatismo, e não na ideologia.
II. O Império Otomano: O Gigante no Bósforo
Para entender a dinâmica, precisamos compreender as dimensões. Entre 1299 e 1922, o Império Otomano não era apenas um estado, mas uma ordem mundial. Controlava os locais sagrados e as rotas comerciais de três continentes. Dê uma olhada na minha pesquisa sobre a Jerusalém Otomana para ver como essa influência estava profundamente enraizada cultural e administrativamente.
- Poder Geopolítico: Um império que dominava o equilíbrio entre a centralização em Istambul e a autonomia regional.
- O “Homem Doente” da Europa? Um clichê ocidental. No século XIX, o império era um ator ativo e reformista, que buscava alianças modernas como a com os EUA para resistir à pressão da Europa.
III. Os EUA: O Jovem Desafiante
Após 1776, os EUA estavam famintos por mercados e reconhecimento. Sem a proteção da frota britânica, os navios mercantes americanos no Mediterrâneo eram presas fáceis para os corsários berberes (que estavam nominalmente sob soberania otomana). O caminho para Esmirna (Izmir) não era, portanto, apenas uma aventura comercial, mas uma questão de segurança nacional e sobrevivência para a marinha mercante americana.
IV. Relações Diplomáticas: O Avanço de 1830
A. O primeiro contato e o navio “Ann”
Muito antes dos embaixadores oficiais, foram os mercadores que construíram as pontes. Já em 1797, o primeiro navio mercante americano, o Ann de Salem, sob o comando do capitão Benjamin Hodges, entrou no porto de Izmir. Isso marcou o início de fato das relações comerciais diretas.
B. O Tratado de 1830 e o mistério do “Artigo Secreto”
Em 7 de maio de 1830, os EUA e o Império Otomano assinaram em Constantinopla seu primeiro tratado de comércio e navegação. Mas isso é apenas metade da verdade.
A Relíquia Oculta: O tratado continha um artigo separado e secreto. Este permitia que o Império Otomano encomendasse a construção de navios de guerra em estaleiros americanos e importasse madeira para construção naval. Enquanto o Senado dos EUA ratificou a parte pública em 2 de fevereiro de 1831, o artigo secreto foi rejeitado por razões constitucionais e políticas no entanto, ele mostra quão estreita era a cooperação militar industrial planejada.
C. Da Legação à Embaixada
David Porter tornou se em 1831 o primeiro Encarregado de Negócios (Chargé d’Affaires) em Constantinopla. No entanto, foi apenas em 1906 que os EUA elevaram oficialmente sua missão diplomática ao status de embaixada. John G. A. Leishman tornou se o primeiro embaixador dos EUA no Império Otomano em 18 de junho de 1906 um sinal claro de que Washington agora tratava a Porta como uma grande potência em pé de igualdade.
Esses processos formais lembram os obstáculos burocráticos modernos. Quem faz negócios internacionais hoje conhece a complexidade da legalização de documentos uma necessidade que tem suas raízes justamente nesses primeiros acordos consulares.
V. Comércio: Ópio, Algodão e Tapetes
Os comerciantes americanos estabeleceram se rapidamente em Izmir e Istambul. Enquanto os EUA forneciam produtos manufaturados e novas tecnologias, as exportações otomanas eram altamente cobiçadas nos salões americanos. Além de figos e passas, o Tapete da Anatólia era um símbolo de luxo e sofisticação nos lares americanos.

VI. Influência Cultural: Fato e Ficção
A. O Boom do Orientalismo
No século XIX, a América viveu uma onda de “Turquerie”. Moda, móveis e arte foram fortemente influenciados pelo estilo otomano. Missionários americanos, que chegaram pela primeira vez a Esmirna em 1820 (Pliny Fisk e Levi Parsons), trouxeram não apenas religião ao Oriente, mas também relatos detalhados sobre a vida no império de volta à sua terra natal.
B. O Mito da Cúpula do Capitólio
Um boato persistente afirma que a cúpula do Capitólio dos EUA foi diretamente inspirada na arquitetura otomana. Aqui precisamos esclarecer: embora o arquiteto Thomas U. Walter tenha usado uma construção de cúpula dupla de ferro fundido uma técnica que apresenta paralelos estruturais com cúpulas islâmicas –, documentos oficiais do Architect of the Capitol comprovam que ele se inspirou primariamente em modelos europeus, como a Catedral de São Paulo em Londres e o Panteão em Paris. A semelhança é impressionante, mas é mais uma prova de engenharia convergente do que de transferência tecnológica direta.

VII. Conflitos e Alianças: A Guerra Civil Americana
Aqui revela se a verdadeira profundidade da relação. Enquanto potências europeias como a Grã Bretanha e a França flertavam com os Confederados (estados do Sul), o Império Otomano tomou uma posição clara.
A. O Sultão Abdülaziz apoia Lincoln
Em 1862, o Sultão Abdülaziz emitiu um decreto proibindo navios de guerra confederados de entrarem em portos otomanos e vetando a venda de armas para o Sul. O motivo era o realismo político: o Império Otomano lutava contra suas próprias revoltas internas e, portanto, apoiava por princípio a unidade estatal e o governo central da União. Um fato histórico que é frequentemente ignorado.


VIII. O Fim e o Recomeço (1917-1927)
A Primeira Guerra Mundial trouxe a ruptura. Em 1917, os EUA cortaram as relações diplomáticas. No entanto, ao contrário dos aliados europeus, os EUA nunca declararam guerra oficialmente ao Império Otomano.
Após a guerra e a vitória do Movimento Nacional Turco marcado por figuras como Halide Edip Adıvar, que possuía fortes ligações com instituições educacionais americanas –, as relações precisaram ser redefinidas. Como o Senado dos EUA rejeitou o Tratado de Lausanne em 1923, as relações diplomáticas foram restabelecidas apenas em 17 de fevereiro de 1927 através de uma troca pragmática de notas (“Modus Vivendi”) em Ancara entre o Almirante Mark L. Bristol e o Ministro das Relações Exteriores turco Tevfik Rüştü Bey.
IX. Cronologia dos Momentos Chave
- 1797: Chegada do navio mercante dos EUA “Ann” em Izmir.
- 1820: Primeiros missionários americanos (Pliny Fisk & Levi Parsons) chegam a Esmirna.
- 1830: Assinatura do Tratado Comercial (incluindo artigo secreto sobre navios de guerra).
- 1831: David Porter torna se o primeiro Encarregado de Negócios da legação dos EUA em Constantinopla.
- 1862: O Império Otomano proíbe navios confederados de entrar em seus portos (apoio à União).
- 1906: Elevação da missão dos EUA à categoria de embaixada; John G. A. Leishman torna se o primeiro embaixador.
- 1927: Retomada das plenas relações diplomáticas pelo Acordo de Ancara.
FAQ: Perguntas Frequentes
Por que os otomanos apoiaram os estados do Norte na Guerra Civil?
Como um império que lutava contra a fragmentação, a liderança otomana simpatizava com a luta de Lincoln pela preservação da União e contra a secessão.
Quando começaram as relações oficiais?
O primeiro tratado formal foi assinado em 7 de maio de 1830, embora os contatos comerciais já existissem desde 1797.
Os EUA declararam guerra ao Império Otomano?
Não. Embora as relações diplomáticas tenham sido cortadas em 1917, as duas nações nunca estiveram oficialmente em estado de guerra uma anomalia histórica na Primeira Guerra Mundial.







